Quarta-feira, Novembro 09, 2011

De volta à Valeta, mas com Umberto Eco

Quando as primeiras 60 páginas (de mais de 500) de um livro têm as frases perfeitas para legendar os nossos, é um bom presságio...

"O importante é saber aquilo que os outros não sabem que tu sabes"

"Sente-se melhor com o veneno do que com o remédio"

" Com os alemães é como com as mulheres, nunca se chega ao fundo"

" ... mas também como sou por dentro admitindo que tenho um dentro"

"Os prazeres da cozinha começam antes dos prazeres do palato, e preparar quer dizer antegozar"

Segunda-feira, Março 29, 2010

O Valeta Comum está encerrado por tempo indeterminado.

A todos os que por aqui passaram, obrigada.
Catarina Soutinho

Sábado, Fevereiro 13, 2010

Amnistia aos delitos do coração

É um mal comum das cidades.
Em Madrid, por todo o lado há paredes horrivelmente "sprayzadas" com coisas que não significam coisa nenhum, em Lisboa, o Bairro Alto é um monte de rabiscos de qualidade dubia (pelo menos era, da última vez que lá estive) e o Porto, não foge à regra. E aborrece-me sobremaneira, ler as porcarias reenvindicativas, com símbolos do Bloco de Esquerda (berloque de esquerda) a anunciar que querem acabar com mais não sei quê, porque o mundo é capitalista, fruto de não sei quê. Whatever. Não tenho paciência.

Mas de vez em quando, no meio de tanta falta de civismo, aparecem umas verdadeiras maravilhas.

Há alguns anos atrás, perto da praça Carlos Alberto, no Porto, tinha uma frase que dizia uma coisa tão simples quanto "O MEU ABRAÇO TEM A FORMA DO TEU CORPO", não sei se será plágio, não sei se saiu da cabeça de algum iluminado, mas é perfeita no poema. Lembro-me que escrevi a propósito dessa frase aqui no Valeta.

E ontem, na rua Barão de S. Cosme, perto da Faculdade de Belas Artes do Porto, uma nova frase prendeu-me a atenção: "AMNISTIA AOS DELITOS DO CORAÇÃO". E pensei «mas que bela frase, é mesmo isto que me apetecia dizer» Hoje fiz uma pesquisa na internet à procura de um autor para a frase, não encontrei. Talvez tenha saído da cabeça de um qualquer que anda nas ruas a estragar paredes, e que tanto me causa pruridos, mas que é uma belíssima frase, é.

Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

Für Alina, Arvo Pärt

"Tenho de me concentrar em cada som, de modo que cada lâmina de erva, seja tão importante como uma flor." Arvo Pärt

Neste vídeo, de onde tirei a citação acima, Arvo Pärt "traduz" a música Für Alina. É uma das músicas que completa o álbum Alina, onde se pode encontrar uma das músicas mais importantes da minha vida: "Spiegel im Spiegel". Uns sons que considero o mais aproximado a poéticos pingos de chuva. Também Für Alina, é uma poesia, uma flor a abrir-se, uma espécie de "andar solitário por entre a gente".
E ao ouvir Arvo Pärt, que só nos minutos finais da apresentação ousa, discretamente, olhar o público e sorrir quase como a pedir desculpa, é ver a verdade que existe em pessoas assim. É que ouvi-lo sabe a puro, a verdadeiro, a perfeito no poema. Este vídeo é um momento enternecedor.



Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010

It Don't Mean A Thing

Aqui está uma das minhas músicas de eleição, na versão que mais gosto. É simplesmente genial.
Hoje estou assim, como a música....

It Don't Mean A Thing If It Ain't Got That Swing
Ella Fitzgerald & Duke Ellington

"It don't mean a thing, if it ain't got that swing
(doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah,
doo-ah, doo-ah, doo-ah)
It don't mean a thing all you got to do is sing
(doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah,
doo-ah, doo-ah, doo-ah)
It makes no difference
If it's sweet or hot
Just give that rhythm
Everything you've got

Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

Benjamin Zander

Este senhor esteve hoje na Casa da Música, para a primeira edição da Leadership Grand Conference. Com uma plateia de luxo, consta-se que fez um brilharete.

Benjamin Zander é o maestro da Orquestra Filarmónica de Boston, mas é também um brilhante entertainer, apaixonante o suficiente para que os bilhetes para assistir a esta conferência custassem a módica quantia de 350 euros. Não é para qualquer um!

Para verem o que perdemos aqui fica a conferência que ele deu no TED.


Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

Paula Rego, no The Guardian

Artists Paula Rego, Tracey Emin and Matt Collishaw talk about how showing at London's Foundling Museum opened themes that are painfully close to home.
A reportagem pode ser vista aqui, no The Guardian, e é de gastar 5 minutos a ver.

A propósito, apesar de não ser uma apreciadora do trabalho de Paula Rego, a verdade é que ela tem algo que aprecio imenso num artista. Que é a capacidade de simplificar. É simples. Aliás não me lembro de ninguém conseguir desarmar com tanta eficácia a necessidade intelectual da Paula Moura Pinheiro (de quem sempre gostei, desde os tempos da franja).

Não consigo encontrar um link da ida da Paula Rego ao Câmara Clara, mas era de rever.

É que, tanto quando sei (e assumo que não sei muito), Paula Rego não faz aquilo que a maioria dos artistas faz: ou seja descomplica as coisas simples.

Irrita-me ver um quadro com um pontinho azul no canto superior direito, e ler a respectiva explicação (escrita por um entendido qualquer) debitada como se a qualidade do quadro fosse inflacionada pela quantidade de metáforas, analogias, pleonasmos, adjectivos, alusões a planos metafísicos e filosóficos. No final de ler tão profundas dissertações penso: "Porra Catarina, este quadro quer dizer isto tudo? Afinal não é um quadro, é uma gramática!"

Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

Charlotte Gainsbourg: IRM





Charlotte Gainsbourg: IRM

"Most of all, they're in the fragmentary echoes of her father's music: songs she may never surpass, but gracefully, admirably, strives to live up to."



Terça-feira, Janeiro 12, 2010

"Love theme" por Badalamenti

A música do genérico do Twin Peaks é talvez a música mais conhecida de todas as séries feitas até à data. Recorde-se que a série é de David Linch que, na década de 90, se dirigiu a Angelo Badalamenti e lhe pediu a música para Laura Palmer.

No vídeo abaixo, vemos Badalamenti a explicar como nasceu a "Love Theme From Twin Peaks" , e a verdade é que nunca uma explicação musical me pareceu mais erótica, envolvente, sensual, delicada, deliciosa, imensa, em suma, é que ouvir a explicação de Badalamenti, é como um acto de amor, com preliminares, climax, abraços, sorrisos, satisfação, amor, carinho.

É belíssima a forma como o autor descreve momento a momento, como o disfruta, como ainda o revive.

E para os mais esquecidos coloco o vídeo do genérico da série.





Terça-feira, Janeiro 05, 2010

"O direito ao **da-se"

Desde as bases ancestrais do Valeta Comum que "namoro" este texto, cuja autoria é atribuida a Millôr Fernandes. É provável que muitos dos que passam aqui já o tenha lido algures no ciberespaço.
Não o partilhei antes porque tenho sempre algumas reservas em usar palavrões como subtitutos de argumentos melhores para transmitir seja lá aquilo que for. E não se trata de qualquer tipo de snobismo ou outro ismo qualquer, até porque um palavrão pode funcionar melhor que um Alka Seltzer. A verdade, é que não tenho o síndrome "escritora contemporânea linha Cascais" em que diálogos se não são resolvidos com o recurso à bela arte de praguejar, então **da-se!

Aqui vai o belíssimo texto de Millôr Fernandes, o qual, sinceramente, gostava de ter sido eu a escrever.

O direito ao Foda-se por Millôr Fernandes

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de
"foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do
"foda-se!"?

O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma
pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me.

"Não quer sair comigo?!
- então, foda-se!"

"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! -
então,
foda-se!"
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na
Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente
válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem
com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a
fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará
plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor
a ideia de muita quantidade que "comó caralho"?
"Comó caralho" tende para o
infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó
caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó
caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó
caralho!
Entendes? No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a
mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e
não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem
pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o
assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de
maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te
pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta
logo um definitivo: "Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te
fodas!". O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial
encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas
a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na
sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!",
falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia
irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem
a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores
de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua
maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o
bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do
suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar
no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua
auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar
firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo
nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de
maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação,
mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta,
pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de
ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu
autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim
como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma
sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou
quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego
não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa
qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em
pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a
desejada reforma tem
que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”

Então:

Liberdade,

Igualdade,

Fraternidade

e

foda-se!!!
(Adaptado de Foda-se, Millôr Fernandes)